



ÁFRICA sempre a durar nesta forma singular. Era o fascínio era a entrega era o colorido o exotismo era a vontade de Deus e dos Homens! Sem tabus ou preconceitos.





Hospital Cerca do hospitalQUE OUTONO É ESTE
são penas caídas
espalhadas no chão
são rostos da vida
que morrem em vão
despidas das árvores
sem folhas sem folhos
ficam na nudez
no pranto dos olhos
erguidos fantasmas
crepúsculo outonal
no rubro da espera
que atento seduz
ganha-se outra luz
tão só e mais triste
nas sombras em vão
perdidas na cor
espalhadas no chão...
são penas caídas
tolhidas no tempo
deste tempo, são
mágoas aquecidas
tão só acrescidas
no meu coração
isabelmonteiro

já não há mais nada.
Sentir é nada
se existir não pode
tanta rota ignorada
Tanto gesto inútil
nessa sombra do repouso vão
que por si se explica
ou talvez não
nada se explica
rigorosamente nada!
Voam as pombas
na imaginação
de um céu volátil
que se abate
quando a chuva cai
se tudo acaba tudo se vai
nada se detém
à sorte dura
Alcova térrea
onde tudo passa e esquece
da alma o refrigério...
ruas sem nome
dos números se é cativo
marmóreo branco
tecido numa só luz
ali mora a verdade na espera sempre em vão
Dormem ciprestes e roseirais sombrios
sussurra o vento, soltam-se os pardais
em lancinantes pios
serenata tardia melancólica e triste
estende-se a vida que o olhar consome
de nunca haver mais nada
prisioneira da inútil estaca
e de uma simples matemática:
nada a somar ou a subtrair
nada a multiplicar ou a dividir
Amálgama confusa do sentir...


Sou uma saudosista por natureza. Mas gosto de ser assim. Não me queixo e ninguém se aborrece. Falo comigo, olho os longes, viajo, olho os espaços, o mar o céu o sol a lua o dia e a madrugada choro rio atropelam-me as recordações arrepelam-me as saudades mas volto sempre... Tanto turbilhão nestes vôos alargados que a memória vai consentindo...Depois tudo tem cheiro cor música ritmo alegria tristeza ansiedade partida regresso...Um vaivem infernal do pensamento deambulante até às tantas da madrugada! Que bom é viajar e ninguém dar por estas minhas ausências. Vou e venho quando quero e sempre que me apetece. Não tenham dúvidas. Sermos donas de nós próprias e sabermos navegar orientando bússolas sermos timoneiros do nosso destino no
mar na terra no ar assim olhando flores animais peixes pombas corvos borboletas cigarras em festa os paraísos secretos e tudo libertado e eu vestindo leve saltando leve voando leve cantando sempre a vida breve que foi tão longa verdadeira num sonambulismo adivinhada
...Só não consigo a vibração nas coisas retratadas. Essa a grande luta e a gritante frustração!. O resto é perfeito.Vejo tudo e todos com uma enorme e inesgotável clareza! Demoro o tempo todo que no apetite cabe. Os sentidos abrem-se em leque e quase sinto oiço vejo toco cheiro neste perder países viajando! . E, quanto mais longe me ausento, mais o retrato de tudo é mais perfeito. As acácias em flor o cheiro do caril a forte maresia do Índico o aveludado da paisagem e tudo a perpassar nas coisas de leve quase sussurrando... o zumbir do mosquito o cantar do simba o arrastar do leopardo velho o crocitar do corvo o gargalhar da Kizomba o riso cristalino das crianças o parque dos baloiços as rodas as corridas as cantigas as vozes ai as vozes na voz a chamar...Regresso doloroso. Aceno mais uma vez. A minha liberdade! Esta a minha liberdade amarrada à escrita de onde tudo sai... O grito os olhos rasos de água a garganta apertada o peito dolorido a mágoa a cabeça vazia a memória acordada... Chego ao ponto de
partida. O navio larga as amarras a sirene vibra no espaço o último aceno o marulhar das ondas o mar o céu o dia o Sol a noite as estrelas a lua...Ó meu Deus! Esqueci-me que era hoje o dia da partida. Dia 24 de Agosto de 1957, rumo a África / Moçambique.
Ficarei à espera no cais... "quando se fez ao largo a nau na noite escura/ na praia aquela mulher ficou chorando..."



Minhas noites africanas
No negrume
Denso agreste
Lembrar-vos
Causa arrepio
De quem vos sentiu
Tão perto
África
Mistério aventura
Foste paz
No meu deserto
Na noite de tantos anos
Na noite de tantos ais
As vozes vêm chegando
Da selva inteira crispada
Ruídos silvos estranhos
Vultos que se movem sem ver
Numa feroz gargalhada
Corujas simbas quizumbas
São gritos qu’inda transporto
Como orquestra na memória
E quando o dia raiava
Em grandes bandos os corvos
Atacando o cajueiro
Debicando e sugando
O líquido que os saciava
Sem terem outra razão
Caíam tontos no chão
E eram luto nos meus olhos
Tudo temia e enfrentava
Na coragem dos teus sóis
Brilhando nos milheirais
E quando a terra abafava
E tudo à volta fervia
A tromba de água caía
Açoitando os areais
Da tua terra molhada
O cheiro que se bebia
Era néctar o perfume
Colhido do incenso agreste...
E tudo mais se esquecia
Do mundo nada sabia
Saudade do teu saber
Saudade não sei dizer
De tudo quanto nos davas
De tudo quanto nos deste
Minhas noites africanas
Quantos segredos e medos
Quanta ventura e esperança
Quanta angústia e tanta espera
Quanta vida e tanto ardor...
A ti voltaria um dia
Pela mão do meu amor!
e em vão sonhado
que tua voz, doce canto
cessaria
como no outono
o vento louco, crispado
envolvesse de neblina
a nossa vida
como a nuvem do céu
o alegre prado
a dor certeza
de toda a incerteza
descansa em paz
meu querido irmão
na Paz que tens...
e não te tendo perto
hoje, a meu lado,
jamais eu quero em mim,
os parabens...
Bé
Isabel Ribeiro Monteiro
Lisboa,30-10-2009


ada e colorida e numa entoação tão real que nos confunde e conforta por longos momentos. Uma morte recente aconteceu. A do meu querido irmão gémeo, João Filipe. Cortou-se finalmente o cordão umbilical que tão fortemente nos unia. E nem sequer tive tempo de lhe dizer adeus! Só depois e já na sua fronte incrivelmente gelada lhe deixei um beijo da minha ternura e devoção que durante toda a vida me mereceu. E te rogo também meu querido e adorado mano..."se lá no assento etéreo onde subiste/ memórias desta vida te consente..." Que a vida para além da morte seja uma VERDADE! Beijo-te onde quer que estejas. A tua inseparável irmã a tua gémea " ó grande Bé" ...
ÁFRICA MINHA
Mocímboa da Praia-Cabo Delgado,1957/58
Está o simba a cantar
lá no rio Quinhevo
enchiam-se os ares
de tantos horrores
e os horrores de medo
onde canta o simba?
lá no rio Quinhevo
e o preto estendia
o braço comprido
só se via o dedo
apontar distância
que não se media
e o simba cantava...
o banzé terrível
no silêncio enorme
era só quebrado
p´lo cantar do simba
lá no rio Quinhevo
e o simba cantava...
só o rio se riu
e guardou o medo
do simba a cantar
lá no rio Quinhevo (O rio Quinhevo fica a 5Km de Mocímboa da Praia!Mas ouvia-se o cantar leão)
Percorri Moçambique de norte a sul condicionada à vida profissional do meu marido, médico, do então Quadro Comum do Ultramar. Com ele, percorri um mundo totalmente diferente, de espaços inóspitos mas estranhamente belos e que não cansavam o nosso olhar perscrutador. As picadas, eram as estradas nesse norte de Moçambique, onde pululava toda a fauna selvagem que nos saltava ao caminho e também as estranhas gentes, nomeadamente, os macondes, que se exibiam com tatuagens várias sobretudo no r
osto, deixando ver também uns dentes serrados, e que nos olhavam com perplexidade, mas que uma saudação amigável da nossa parte, lhes dava confiança, correspondendo então, com acenos vários. Elas, apenas usavam a capulana à cintura, exibindo algumas, os peitos muito caídos que os filhos puxavam e chupavam até t
arde. Eles, apenas colocavam uma tanga, qual folha de parreira, exibindo todo o corpo de pele áspera e com crateras visíveis pelo sol ardente de África. Um verdadeiro paraíso selvagem.Falo do distrito de Cabo Delgado, nas regiões de Mueda e de Palma que visitava todas as semanas, acompanhando meu marido nas suas visitas Sanitárias e às Maternidades.Distanciavam estas povoações, respectivamente, 80Km de Mocímboa da Praia, que foi a terra do nosso baptismo, em Moçambique. E começaram aí também as nossas estranhas aventuras das arábias...Tanto colorido tanto cheiro quanto mistério e beleza a fixar no olhar ávido de curiosidade, nessa distância que parecia não ter fim.
Foi talvez em África, espaço de infinitos e matizados horizontes e que a memória não esquece, que vivi os 17 anos mais celebrados e felizes da minha (nossa) vida. E, tudo me faz voltar a essas recordações que se foram, conjungando-as com o nascer dos nossos filhos. Meu marido foi médico em África. Com ele, percorremos os espaços exóticos que vão desde os distritos de Cabo Delgado , passando pelo do Niassa, Zambézia, Sul do Save até à fixação dos últimos quatro anos na cidade de Nampula. De tudo o que aí me deixou presa, registo, numa breve e sentida alusão, já gravada e escrita no meu livro, África nos Socalcos da Memória, 1998, que é quase um grito um hino uma saudação à ÁFRICA desse nosso/vosso tempo 

