quarta-feira, 7 de outubro de 2009

PARA SEMPRE É MUITO TEMPO...






a ti meu querido irmão gémeo, João Filipe)

Hoje, dia 30 de Outubro, fazemos anos. Ou, fazíamos.

Sem ti, o nosso aniversário, fica na metade... Sem sentido. Sem concerto. Sem festejo.

Agora, já sem tempo para o tempo deste dia. E tudo vai tão longe e se eterniza! Mas eu recuso a tua ausência. Continuas comigo e com aqueles que tanto te amavam! Enquanto gémeos, só agora sinto que foi cortado, definitivamente, o cordão umbilical...A morte na sua forma mais natural e mais cruel, abateu-se entre nós . Tu partiste e eu fiquei. A sentir mais um vazio que medir não posso, e que mergulha cada vez mais fundo, na derradeira vontade, da minha solidão.





Tivesse alguma vez
e em vão pensado
que o forte grilhão
que nos unia
pudesse finalmente
ser cortado
e nunca mais festejado
o nosso dia



tivesse alguma vez

e em vão sonhado

que tua voz, doce canto

cessaria

como no outono

o vento louco, crispado

envolvesse de neblina

a nossa vida

como a nuvem do céu

o alegre prado



tivesse alguma vez

a dor certeza

de toda a incerteza

harmonia

descansa em paz

meu querido irmão

na Paz que tens...

e não te tendo perto

hoje, a meu lado,

jamais eu quero em mim,

os parabens...

Isabel Ribeiro Monteiro

Lisboa,30-10-2009










quinta-feira, 24 de setembro de 2009







Chegámos a Mocímboa da Praia numa manhã ardente de verão africano! A viagem de Lourenço Marques até aquelas paragens demorou dois longos dias. Embarcámos no paquete Principe Perfeito até à Ilha de Moçambique onde desembarcámos. Eu, o meu marido e um filho de dois anos, o Zé. Ali fomos recebidos pelo Delegado de Saude e sua família que, para nós, naquelas lonjuras, se tornou o melhor porto de abrigo, já que deixávamos Portugal e a família pela primeira vez. Recordo, com saudades, que levava dobrado no braço um rico e lindo casaco de caraculo verde, que aos olhos de todos se traduzia por um belo agasalho de inverno! E, logo, o colega do meu marido, que nisso reparou, me disse, desta forma irónica:-Oiça lá, por que é que trás esse casacão para África? Fique sabendo que quando chegar ao destino, terá que o guardar na arca porque nunca o vestirá!...Estava longe de saber que tipo de calor iria enfrentar!!... Lá me agarrei ao casaco com mais força, numa tentativa de protecção do mesmo e com imensa pena de não o poder exibir. E, de facto, assim aconteceu. Grande sentença. Lá ficou guardado numa das minhas arcas, durante alguns anos que permanecemos em África, exceptuando Lourenço Marques e Vila Cabral, onde o frio se fazia sentir, na época do cacimbo. Também, nunca pensei poder suportar calor tão tórrido, com a agravante de uma grande percentagem de humidade. E, foi assim, que no dia seguinte, completamente fascinados com a beleza paradísiaca da Ilha de Moçambique, partimos para Mocímboa da Praia, mas já condicionados a um barco de pequenas dimensões que fazia as pequenas viagens na Costa. A viagem não se tornando tão agradável, ganhou outra dinâmica pela curiosidade pelo desconhecido e pelo prazer da aventura. No entanto, os enjôos foram difíceis de suportar...

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

UM ADEUS AO MEU QUERIDO IRMÃO GÉMEO JOÃO FILIPE
Um breve e grande interregno da alma!
O momento é de silêncio e de enorme tristeza! Faltam as palavras e não há palavras para dizer o que tão profundamente se sente. Não se podem nem devem inventar palavras quando se esgotam à partida por um motivo funesto que é o dessa viagem sem regresso. É assim a morte, vil e traiçoeira, silenciosa e brutal. Tudo acaba no momento em que surge. O luto no preto ganha aos nossos olhos um certo conforto e um distanciamento das coisas banais. A vida paralisa os gestos e a vontade de caminhar. A Saudade instala-se revestida de uma dor que se pensa impossível, porque a viver das recordações. São assim os primeiros tempos. Inconformação, desalento choro até às lágrimas ou a vontade de gritar. Também a raiva por aquilo que se não fez, entremezes que a vida tece. E a grande vontade de tudo voltar a ser como era dantes! As recordações felizes começam a desfilar a nosso bel-prazer, e nesse regresso da morte, as ilusões dos dias felizes acompanham-nos e desfilam numa cinética tão movimentada e colorida e numa entoação tão real que nos confunde e conforta por longos momentos. Uma morte recente aconteceu. A do meu querido irmão gémeo, João Filipe. Cortou-se finalmente o cordão umbilical que tão fortemente nos unia. E nem sequer tive tempo de lhe dizer adeus! Só depois e já na sua fronte incrivelmente gelada lhe deixei um beijo da minha ternura e devoção que durante toda a vida me mereceu. E te rogo também meu querido e adorado mano..."se lá no assento etéreo onde subiste/ memórias desta vida te consente..." Que a vida para além da morte seja uma VERDADE! Beijo-te onde quer que estejas. A tua inseparável irmã a tua gémea " ó grande Bé" ...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009




ÁFRICA MINHA
Mocímboa da Praia-Cabo Delgado,1957/58


Está o simba a cantar
lá no rio Quinhevo
enchiam-se os ares
de tantos horrores
e os horrores de medo


onde canta o simba?


lá no rio Quinhevo


e o preto estendia
o braço comprido
só se via o dedo
apontar distância
que não se media


e o simba cantava...


o banzé terrível
no silêncio enorme
era só quebrado
p´lo cantar do simba
lá no rio Quinhevo


e o simba cantava...


só o rio se riu
e guardou o medo
do simba a cantar

lá no rio Quinhevo (O rio Quinhevo fica a 5Km de Mocímboa da Praia!Mas ouvia-se o cantar leão)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Percorri Moçambique de norte a sul condicionada à vida profissional do meu marido, médico, do então Quadro Comum do Ultramar. Com ele, percorri um mundo totalmente diferente, de espaços inóspitos mas estranhamente belos e que não cansavam o nosso olhar perscrutador. As picadas, eram as estradas nesse norte de Moçambique, onde pululava toda a fauna selvagem que nos saltava ao caminho e também as estranhas gentes, nomeadamente, os macondes, que se exibiam com tatuagens várias sobretudo no rosto, deixando ver também uns dentes serrados, e que nos olhavam com perplexidade, mas que uma saudação amigável da nossa parte, lhes dava confiança, correspondendo então, com acenos vários. Elas, apenas usavam a capulana à cintura, exibindo algumas, os peitos muito caídos que os filhos puxavam e chupavam até tarde. Eles, apenas colocavam uma tanga, qual folha de parreira, exibindo todo o corpo de pele áspera e com crateras visíveis pelo sol ardente de África. Um verdadeiro paraíso selvagem.Falo do distrito de Cabo Delgado, nas regiões de Mueda e de Palma que visitava todas as semanas, acompanhando meu marido nas suas visitas Sanitárias e às Maternidades.Distanciavam estas povoações, respectivamente, 80Km de Mocímboa da Praia, que foi a terra do nosso baptismo, em Moçambique. E começaram aí também as nossas estranhas aventuras das arábias...Tanto colorido tanto cheiro quanto mistério e beleza a fixar no olhar ávido de curiosidade, nessa distância que parecia não ter fim.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

África minha (1957/1974)


Foi talvez em África, espaço de infinitos e matizados horizontes e que a memória não esquece, que vivi os 17 anos mais celebrados e felizes da minha (nossa) vida. E, tudo me faz voltar a essas recordações que se foram, conjungando-as com o nascer dos nossos filhos. Meu marido foi médico em África. Com ele, percorremos os espaços exóticos que vão desde os distritos de Cabo Delgado , passando pelo do Niassa, Zambézia, Sul do Save até à fixação dos últimos quatro anos na cidade de Nampula. De tudo o que aí me deixou presa, registo, numa breve e sentida alusão, já gravada e escrita no meu livro, África nos Socalcos da Memória, 1998, que é quase um grito um hino uma saudação à ÁFRICA desse nosso/vosso tempo

...Distância marcada pelos horizontes sem fim mistura de selva e deserto de coloridos e sons múltiplos que a Natureza oferece naturalmente como orquestra implantada no seu seio com todos os sustenidos e bemóis a compor os ritmos das suas melodias e ritmos
Dos tantãs a comunicar na distãncia ao toque dos marimbeiros a fazer requebrar de forma única o seu corpo inteiro
África da nudez natural da cor morena estonteante! África a erguer-se nas manhãs claras para adormecer na languidez da noite no seu corpo cansado
África dos mistérios nocturnos das caçadas do coração a bater no emaranhado da selva escura na tentação de desvendar os seus íntimos segredos
África das Impalas amedrontadas e do olhar fascinante do leão dominador
Das pegadas gigantescas do elefante a pôr em debandada os grandes sonhadores das aventuras ímpares...
África minha risonha dos dias quentes que se eternizavam e que bebiam na noite a beleza inefável de uma Lua verdadeira já que no hemisfério Sul
África saudade das chegadas e partidas das viagens no teu seio a albergar os filhos de todos nós
África suor no rosto por tudo o que foi erguido. Na tua seiva bruta a nossa elaborada
África dos medos e dos receios vencidos
África fraterna nesse caminhar de mãos dadas
Que é de tantos anos?
Que é das noites de solidão e dos risos de todas as manhãs?
África minha e de todos vós
África a caber no coração de Portugal
África...
Onde estás agora?!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

E Nada Acontece



Poema de Isabel Ribeiro Monteiro

Arranjo e declamação de Filipe Monteiro

Lá vem a negra




Lá vem a negra
Gingando
Ancas largas

cintura fina
De peito roliço
Rolando...rolando...

O seu corpo é rio
Seus gestos
São música
Mas também vem triste
Que feitiço existe?

Rolando no chão
Já ninguém a quer
Vai tirar feitiço
Ali na palhota
Seu mestre entendido
Espera por si
Abre-se uma porta
Horas invulgares
Que não são de espera...
Negra agora vem
Toda transparente
A trouxa de roupa
Debaixo do braço
Nos olhos a fala
Do vermelho ardente
Seu corpo de fogo
Na nudez do vento
Suas coxas grossas
Dobradas no riso
Toda sensual
Traça a capulana
De cor encarnada
Descalça dançando
Gingando gingando
Molha-se no rio
Estende-se nos verdes
Os verdes se agitam
São todos bandeiras
O sol é ardente
Na sombra esquecida
Se acendem desejos
E o que Deus quiser

E foi nesse grito
Que nasceu o mito
D´Africa Mulher.

Mas é moda já se vê...



Solicita-se uma foto adequada...


Em tudo o que se não crê…
Mas é moda já se vê

A aparente juventude
Que o bisturi atesta
Não só a aparência ilude
Parecem múmias em festa


São os peitos a saltar
Do lugar tão contrafeito
Parecem até querer voar
Quais pombas do parapeito

Quanto aos lábios tão carnudos
Que tantas lutam a ter
Torna o semblante sisudo
Fica o sorriso a haver



Desfiguradas lá vão
Até à meta final
E nem pensam como são
As máscaras do Carnaval

Em tudo o que não se crê
Mas é moda já se vê…

Isabel Monteiro
19-09-2008